O Eldorado
Numa pequena tribo indígena de tradição guaiapó habitada por uns trezentos índios, dentre crianças, mulheres, homens adultos e jovens, em um recôndito da América do sul jamais visitado por pessoas que pertencessem a outra cultura. A calmaria e a vida pacata era a lei que reinava nesta comunidade, mas, diz o poeta, toda lei foi feita pra ser quebrada e todo silêncio pra ser rompido.
Eles não imaginavam o que o destino lhes preparava, ou que rumo tomaria a sua vida; certa vez o velho pajé havia avisado que os deuses lhe mandaram preparar toda a tribo para uma grande batalha futura, onde se lutaria baseado em forças desiguais, entretanto, o xamã pensava no seu íntimo que seria realmente um futuro muito, mais muito distante.
O silêncio foi rompido numa tarde de verão, quando o sol se põe mais tarde e os índios acreditam que o deus tupã quer ficar mais tempo com eles. Ao longe os curumins que faziam suas típicas brincadeiras no terreiro da aldeia avistaram coisas grandes como se fossem monstros de pau, era esse o termo usado por eles; eram caravelas que se aproximavam cada vez mais da terra. Um deles correu ao cacique e lhe informou:
- Mestre! Vem chegando em nossa terra três grandes monstros de pau, com panos brancos em sua cabeça enfeitando-os, como costumamos nos ornamentar para a guerra.
- O que dizes é verdade moleque? – retrucou ele.
- Sim, algumas pessoas também viram e podem lhe contar melhor senhor.
O Cacique com ar extremamente preocupado correu para chamar os índios guerreiros da tribo, com uma voz forte chamo-os como um leão na selva. Todos atenderam ao seu pedido e imediatamente juntaram um grande grupo para na praia esperar a chegada dos tais monstros de madeira. Esperaram por volta de quatro horas, pois, os barcos pareciam estar perto, mas, era apenas ilusão do mar; depois desse tempo um primeiro bote aportou na areia da praia liderada por um homem garboso, bem vestido e empunhando uma espada brilhante e afiadíssima. Ao descer, mantendo certa distância dos índios anunciou como um verdadeiro arauto:
- Estas terras pertencem por direito a El Rei, ordeno que imediatamente retirem-se todos por bem e nos mostrem onde há minerais brilhantes e outras coisas mais que possam nos aproveitar.
- Os nativos nada diziam e nada faziam, pois, nem compreendiam que palavras eram aquelas. Apenas com um olhar de perplexidade eles se olhavam mutuamente.
Vendo o capitão que os índios permaneciam inertes partiram para cima, pois, acreditava ele estarem os índios em posição de recusa diante de suas ordens, sendo assim, ordenou aos que estavam com ele que pegassem os índios a força e obrigasse-os a indicar onde estava todo o ouro. Estes últimos nada entendiam daquela cena toda, com exceção de um jovem, dotado de seus vinte e poucos anos, que viu um dos homens do barco apontar para uma pedra de ouro que trazia em um colar, correu ao cacique e lhe disse o que eles desejavam; a esta altura o massacre já havia começado, não poupou-se nem ao menos mulheres, idosos e crianças, foram todos passados a fio de espada por terem se recusado a obedecer uma ordem do representante de El-Rei. Enquanto os brancos lutavam com pólvora e espadas afiadas os nativos possuíam no máximo flechas e lanças de madeira.
Ao amanhecer do outro dia restavam somente os corpos estendidos na praia, que de tanto sangue perdera sua cor esbranquiçada, restava apenas dentre todos eles somente um dos antigos pajés, este contava muitos anos já e nem ao menos conseguia mais andar, entretanto, foi poupado devido a seu ar de sabedoria o que para os conquistadores poderia ser usado no futuro.
O mais incrível é que aquele senhor conseguia se comunicar com facilidade com os brancos e vendo um deles se aproximar indagou:
- Por que fizestes isto com nosso povo, por que tirastes nossa vida dessa maneira?
A resposta foi clara e curta: - Queremos ouro, muito ouro para nosso El-Rei.
O velho pajé parecia não entender aquelas motivações e assim retrucou:
- Não vos entendo, como podeis querer da natureza somente esta pedra brilhante? Nossa mãe terra possui uma infinidade de outras riquezas de todos os tipos, mas, por que somente o ouro, tão simples pedra, vos leva a realizar tantas atrocidades?
O soldado não sabia realmente o que responder ao pajé, dotado de tanta inteligência e retórica, vendo-se interrogado respondeu:
- Nós temos uma doença, uma doença terrível, que nos deixa sem ar, que nos cega e nos torna pessoas descontroladas. Somente o ouro é capaz de nos sarar desse mal horrendo.
Com seus longos anos de experiência no tratamento de todo tipo de enfermidade espiritual e física o velho disse:
- Mas, qual o nome desse mal, que nem as ervas de nosso povo sempre tão eficazes não podem sanar?
Aquele jovem respirou fundo, olhou fixamente para o pajé e anunciou:
- Estes mal na nossa terra se chama cobiça.








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